quinta-feira, novembro 30, 2006

Eu não sei quem te perdeu...


.....Cores diferentes de um Porto nunca igual...às vezes, apenas as cores que o vemos quando fechamos os olhos!


Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".

E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.

Pedro Abrunhosa

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

E foi atrás dos seus óculos de sol que o magano percebeu tudo isto???

"...mãos vazias,
As mãos como os meus dias..."
Mas nunca estão vazias... estão cheias de um olhar que clama por te afagar, que clama por te agarrar... cheias de tudo e de nada tal como são feitos os dias...

"Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais". "...
Não parte quem não ficou... não parte quem não viveu... não parte quem não faz parte... parte uma parte de nós, mas fica sempre outra parte, a parte que não esquece... a parte que não se reparte... a parte que me pertence.

"Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais."
Só quem nunca se separou não soube nunca entender o valor do atracar... só quem nunca soube amar soube alguma vez sofrer por ver seu amor partir... num sofrer e num gritar de quem não se quer apartar... mas que a vida e o momento abafam em sofrimento de que nunca soube fugir.

"...E eu não sei quem te perdeu..."
Foi a hora ou o momento, foi a dor ou o tormento, de te ter e não puder... nunca por nunca correr o risco doutrém perder por lamento ou desvelo... embora de outro advento que se ama sem hesitar por nosso sangue carregar.

"Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou..."
...por longo encanto e desencanto de seu permanente padecer... porque a dor sempre abafada por ser sempre desejada se tornou num tal encanto, que chega a ser desejada e amada quando mesmo desesperada notícia de maior dor...

"...Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais."
Raio partam a mentira em que mergulhei nesse dia em que disse não te amar... não porque fosse mentira, mas por a mim me enganar em tão grande patifaria... que a vergonha fingida me percorra e me tinja para o resto da minha vida em que amarei na ira de tão grande mentira... e que a Terra se revolte e se torne de levante e o Sol se ponha ao meio-dia para grande aflição e para todos lição... que o dia não se mova mesmo que a tanto se queira ou a tal seja impelido o cobarde nessa asneira...

Queira Deus a quem sou crente que a alma se lhe apresente no dia da salvação, pois por no entretanto só e ele ter confessado, o quanto não fui capaz de a ti tudo chorar... nem o amor que contenho, no meu peito empedrenido, nem o quanto penarei por tudo aquilo em que tocas... e nem por mim poder alguma vez saber o quanto quanto para ti fui querido.

Eu também não sei quem te perdeu.

10 dezembro, 2006 23:14  

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